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I’m Sorry (Sega, 1985)

É inegável dizer que a sátira está presente em grande parte dos jogos atuais. Seja sutil ou bem direta, o conceito de ironizar ou tratar de forma sarcástica determinado assunto ou figura dentro de um game é uma prática cada vez mais comum. No entanto, são raríssimos os jogos destinados somente a isto, ou seja, o personagem, a história e até mesmo a jogabilidade são concebidos com a intenção de sacanear uma coisa só. E quando é com política então?

O interessante é que um dos primeiros jogos a fazer isso data de 1985, com uma indústria gamer ainda em expansão. E – não se surpreendam – através de uma iniciativa da Sega, sempre no limite da subversão. Desenvolvido em parceria com a Coreland, I’m Sorry é um jogo de arcade que coloca você no controle do ex-primeiro ministro japonês Kakuei Tanaka, envolvido na época em uma série de casos de corrupção.

O nome do game vem de um trocadilho com a palavra “sori”, que significa “primeiro ministro” em japonês. Já a jogabilidade envolve um esquema de labirintos – semelhante a Pac-man – em que Tanaka deve recolher barras de ouro espalhadas pelo mapa, e retorná-las à câmara de representantes do Estado japonês. Alguns deles estão escondidos dentro de cofres, dos quais o político deve quebrar para obter o ouro escondido.

O melhor é que, no caminho, há uma série de inimigos que impedirão Tanaka de alcançar seu objetivo, desde um Michael Jackson em plena forma, Madonna, Carl Lewis e até homens de preto que pretendem apanhar Tanaka para uma breve sessão de sadomasoquismo. Além disso, existem armadilhas espalhadas pelos estágios, momentos em que se precisa pular para alcançar o ouro, postes incendiários, barris que andam por conta própria, entre outras loucuras.

Por isso, apesar da simplicidade, o game oferece um grande desafio, através de quatro mapas que se alternam em diferentes variações de fases. E o jogo pode ser bem difícil para os menos acostumados com o gênero. Mesmo assim, a dificuldade não pode ser considerada frustrante, já que o game sempre incita a jogar de novo – não importa o quanto  você seja ruim.

Os gráficos merecem destaque aqui. Apesar de um pouco primitivos, todos os sprites são detalhadíssimos, com a intenção de sacanear tudo o que cada um deles representa. Por exemplo, tiveram o cuidado de colocar em Tanaka um sorrisinho safado ao recolher uma barra de ouro. Cada inimigo possui uma animação diferente ao pegar o personagem, ou seja, a cada morte é uma piada diferente. Sem contar o estilo caricato no qual o primeiro ministro é retratado, fazendo da primeira impressão de jogo uma das mais engraçadas de todas.

Outro fator que contribui para a sátira está na música. As duas canções de fase são de alguma forma ridículas, e só contribuem para a comédia do jogo em si. Parece que toda a equipe estava inspirada em transformar esse jogo numa das sátiras mais engraçadas já vistas.

Stage I

Stage II

Vale a pena dar uma conferida em I’m Sorry, mesmo que grande parte das sátiras não sejam compreendidas por nós, dado o aspecto regionalista do jogo. Toda a atmosfera bizarra e absurda  acaba gerando várias risadas involuntárias, tornando essa uma das experiências mais “wtf” dos games, e bem divertida mesmo para quem não entende. Tanto é que, por incrível que pareça, esse arcade veio para o Ocidente; apesar de, hoje em dia, não haver qualquer registro de que algum colecionador a tenha de fato. Mas é uma ROM leve que dá para rodar com facilidade no MAME!

Caso você esteja se perguntando se houve algum processo por parte do primeiro ministro, não há registro disso. Parece que o jogo era obscuro até no Japão, já que hoje em dia há poucas referências relativas ao game.

Agora, já imaginou algo assim por aqui? José Dirceu, anyone?

Fonte: Wikipedia, Jason Cirillo Blog

Jornalista de games, editor de vídeo e estudante de Audiovisual, escreve atualmente para a Revista OLD! Gamer. Além dos joguinhos, também dá pitacos sobre cinema, TV e tecnologia; sempre acreditando que a ironia é a melhor forma de sinceridade. Ouve Game Music e trilhas sonoras de filmes durante a maior parte do tempo, mas jura que é uma pessoa legal. Seguista, badernista e exorcista.

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Categories: Arcade, reviews
  1. 2, novembro, 2010 em 13:08 | #1

    Muito legal, a Sega fazendo uso da crítica social

  2. Eduardo Shiroma
    2, novembro, 2010 em 19:50 | #2

    Nossa, extremamente interessante!
    Já joguei o jogo porém não sabia desse pano de fundo que o jogo possuia.
    Muito bom! Adoro conhecer coisas novas em jogos velhos! 😀

  3. 2, novembro, 2010 em 21:13 | #3

    Muito legal o pano de fundo que a Sega usou neste jogo, uma crítica à corrupção através do sarcasmo de um jogo. Brilhante!

    Os games PRECISAM ter um enfoque mais crítico, seja social, histórico, filosófico ou político para que serem considerados arte. Sei que pra muita gente esse é um assunto chato, mas pra mim, se isso já fosse realidade, talvez não teríamos tantos problemas com proibição e impostos.

  4. 3, novembro, 2010 em 15:12 | #4

    Muito bom. Dos tempos em que não havia censura no mundo dos games…

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