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Músicas excepcionais para jogos horrendos – Rastan Saga II

Aos amigos que acompanham o blog, não deve ser mais novidade me encontrar postando alguma coisa relativa à Game Music em geral. Essa é uma tentativa de emplacar algo fixo que relacione a esse assunto que muitos debatem – porém, poucos de fato conhecem – apresentando trilhas sensacionais de jogos que a princípio não são tão bons assim. Por isso, acompanhe como um jogo pode ser tão desmoralizado e, ao mesmo tempo, ter sua trilha sonora exaltada ao extremo. Parcial, eu? Nem um pouco!

Em 1987, Rastan Saga – conhecido por aqui apenas como Rastan – foi lançado pela Taito para os arcades, e teve uma ótima receptividade. A ambientação medieval, a jogabilidade fluida e a ação constante são algumas das caracterísicas da fórmula de sucesso do game. Convertido para vários consoles, o game permanece até hoje como um clássico, mesmo apesar do fato de que os jogos que vieram depois e exploravam o mesmo tema tenham ofuscado essa produção.

Takaki no Game Music Festival 90

As músicas compostas por Masahiko Takaki (que é mais conhecido pela trilha de Night Striker, de 1989) reproduziam bem a ambientação do game, apesar de escassas. Usando o chip de som YM 2151, a instrumentação soava um pouco primitiva, graças ao sons FM limitados que esse hardware sonoro produzia. Ainda assim, graças à qualidade das composições, a trilha sonora do jogo é lembrada até hoje, tanto pelos fãs do game quando pelos da Zuntata – que é  o departamento sonoro da Taito. Confira uma pequena amostra:

Um jogo legal desses, onde deu tudo certo e a galera curtiu, poderia gerar uma sequência melhor ainda com tudo maior e melhor, certo?

Pois bem. Senta que lá vem a história.

Produzido por uma equipe diferente e lançado às pressas no ano seguinte, Rastan Saga II consegue o feito de pegar tudo que era bom no game anterior e transformar em algo horrendo, de péssima qualidade. O jogo tem gráficos melhorados, mas o design do personagem e dos inimigos é tão bizarro que só rindo para se divertir um pouco durante a partida.  Os sprites são excessivamente grandes, afetando diretamente na jogabilidade, que é lenta e elaborada para fazer o jogador perder a ficha logo na primeira fase – mesmo na dificuldade mais fácil. Esperem só até ver o primeiro chefe – o que vocês podem me dizer disso?

Como dá pra ver na imagem, o inimigo nem mesmo corre atrás de você para atacar. Ele apenas segue um padrão de movimento pré-estabelecido; se você estiver no caminho, vai apanhar. Simples.

Rastan Saga II ficou conhecido por aqui por Nastar, e na Europa como Nastar Warrior – talvez porque a Taito tenha percebido a besteira que fez, procurando evitar que a reputação do clássico original fosse manchada de alguma forma por isso aí. O jogo foi convertido para o PC Engine e o Mega Drive, sendo que, no caso desse último, conseguiram que o game fosse ainda pior que o original.

Se vocês não acreditam na decadência abismal que Rastan Saga II representa, dêem uma olhada nesse vídeo. A falta de capricho e amadorismo da produção se revela logo no início do jogo: Quem conseguir ler o texto que está em fonte azul escura no fundo preto ganhará um prêmio exclusivo.

Ogura, sempre disposto

Porém, se o jogo só possui deméritos, isso não pode ser dito para a trilha sonora. Hisayoshi Ogura (“líder” da Zuntata e compositor da série Darius) ficou responsável pela parte musical e, como sempre, não desapontou. O novo hardware de som YM2610 possibilitava, além da síntese de sons em FM, a geração de sons pré-gravados, através dos cinco canais ADPCM que a placa possuía. Traduzindo, isso significa que instrumentos reais e vozes poderiam ser gravadas e reproduzidas durante o jogo – guardando as devidas proporções de qualidade que eram limitadas pela memória disponível na época, vale ressaltar. Ogura abusou disso e produziu uma trilha sonora épica, utilizando de uma instrumentação bem à frente do primeiro Rastan, contando com samples de voz e outros efeitos sonoros pré-gravados. Além disso, o estilo característico do compositor está presente em cada composição, com o uso experimental de efeitos sonoros sintetizados, vozes, mudanças súbitas de ritmo, momentos de silêncio, entre outras marcas. Ainda assim, as músicas possuem um estilo medieval que cabe direitinho na jogabilidade – isso para não dizer que elas chegam a roubar a cena, ambientando o jogador de forma mais eficiente do que faria o design gráfico do game.

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~I~ The Story

Sem mais delongas, vamos à primeira música do jogo. Com o inusitado nome~I~ The Story”, a composição também serve como o tema principal do jogo. Após um sample de voz pouco inteligível, uma melodia épica dá início à faixa, buscando representar a jornada do guerreiro. Bem dramática, a canção tem vários elementos que caracterizam uma trilha sonora de filme, buscando sempre trazer um novo instrumento ao arranjo, ou um novo trecho, de forma bem criativa.  Destaque para a melodia conduzida pelo piano na parte final da música.

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~II~ The Trap

No segundo estágio, temos a ~II~ The Trap”, outra peça que se destaca também pela sua dramaticidade. O mais curioso é que a canção subitamente para, mantendo um silêncio de mais de 5 segundos até retornar a seu refrão. Sem dúvida, é uma das maiores surpresas dessa faixa, que utiliza de breves sons de coral em alguns momentos para algo mais impactante.

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~III~ The Battle

Ao terminar a fase, a tela escurece, acompanhada de uma risada maléfica. O chefe de fase surge, acompanhado da “~III~ The Battle”, a melhor música do game. Começando em um estilo que remete a um tema heróico/militar, a música logo transcende para uma parte mais ambiental, com uma voz distorcida  proferindo frases estranhas junto com a batida crescente do bumbo. Tudo para trazer o clima de tensão de uma batalha, aliada ao sobrenatural e heróico. Alguns podem dizer que a composição não consegue sincronizar com o jogo, mas, para mim, coube de forma fundamental. Além disso, a introdução fica na cabeça de forma quase que automática.

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Conclusão

A trilha sonora de Rastan Saga II é totalmente o oposto daquilo que o jogo representa. Aliás, assim como outras trilhas do Ogura, há uma preocupação em contar algo da história do jogo através da música, o que pode ser provado pela forma como as faixas são nomeadas. Essa forma peculiar de estabelecer a narrativa através do som é sem dúvida uma das principais características positivas do game – se não a única que existe.

Além dos temas principais citados aqui, há uma música de créditos finais, da qual não vi nada especial. Também há pequenos trechos entre as fases, contando um pouco da história do jogo – utilizando uma cor de fonte duvidosa.

Apesar de Rastan Saga II ser um jogo para ser esquecido, o legado da trilha sonora permaneceu sendo lembrado por parte da Zuntata. Dos shows ao vivo em que a banda tocou algo do game, há o registro oficial de uma apresentação no Game Music Festival 93. Apesar de vir com o nome da primeira música de fase, a canção na verdade é um medley que passa pelos três principais temas.

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~I~ The Story – Zuntata Live 1993

Em 1998 foi lançada uma coletânea de novos arranges para a série Rastan, fazendo parte da série de álbuns  “Z-Replica” . Apesar de ser bastante interessante, a instrumentação é eletrônica demais, matando o aspecto “medieval” e “épico” das músicas originais.

Rastan Saga II foi convertido de forma porca para o PC Engine e o Mega Drive, com uma péssima adaptação das músicas para o chip de som desses consoles. Assim, todas as melodias se tornam fraquíssimas diante da instrumentação pobre. O game teve como sequência o jogo Warrior Blade, que, dessa vez, conseguiu fazer tudo maior e melhor em comparação ao primeiro game, incluindo aí também uma ótima trilha sonora – que, mesmo assim, não se equipara a deste episódio que cobrimos aqui. 

Em suma, a “obra prima” da Taito de 1988 mostra a preocupação que a Taito tinha com o som de seus jogos. A utilização de um chip de som tão moderno para a época como o YM2610 é uma prova disso – só para ter uma ideia, esse é o mesmo hardware sonoro ao usado no NeoGeo, que só viria alguns anos depois. O uso de samples de instrumentos reais ainda era algo novo, passando a ser usado de forma mais eficiente no início dos anos 90. E a qualidade das composições não desaponta, com Hisayoshi Ogura mostrando a que veio, mesmo trabalhando em cima de um material horrendo.

Esse é o primeiro artigo de uma série que pretendo fazer. Espero que tenham gostado, assim posso fazer outros! Já tenho sugestões para as próximas avaliações, mas se tiverem alguma, podem me mandar!

Jornalista de games, editor de vídeo e estudante de Audiovisual, escreve atualmente para a Revista OLD! Gamer. Além dos joguinhos, também dá pitacos sobre cinema, TV e tecnologia; sempre acreditando que a ironia é a melhor forma de sinceridade. Ouve Game Music e trilhas sonoras de filmes durante a maior parte do tempo, mas jura que é uma pessoa legal. Seguista, badernista e exorcista.

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  1. 7, dezembro, 2010 em 22:12 | #1

    Sensacional! Ultimamente tenho gostado mais de descobrir coisas velhas do que relembrar nostalgicamente o que já conheço. É o caso do post, dada a minha negação em relação aos títulos da Taito. Mal ouvi falar da série.

    Quanto ao primeiro Rastan, o jogo aparecia na primeira versão do “Classic Arcade Medley” do VGL. Há pouco tempo o trecho foi substituído pelo Contra.

    Imagino que o glorioso Sword of Vermilion seja um fortíssimo candidato para figurar nessa nova seção, hehe…

    • 8, dezembro, 2010 em 04:31 | #2

      Essa rendição do VGL é muito boa mesmo, ainda mais porque consegue cobrir a música toda. Muito bom mesmo!

      Agora, Sword of Vermillion é praticamente certeza de entrar aqui – se bem que posso ser espancado por alguns amigos que têm um certo apreço pelo jogo…

  2. 8, dezembro, 2010 em 05:45 | #3

    Bacana, não conhecia essa trilha. Ainda não tive o desprazer de jogar Rastan 2… muito boas as músicas.

  3. 8, dezembro, 2010 em 09:40 | #5

    Esse negocio de musicas excepcionais e jogos horrendos prevalece até hoje com jogos mais atuais como Iron Man, Shadow of Colossus e Big Mutha Truckers para ps2.

    • 8, dezembro, 2010 em 11:03 | #6

      Com certeza, meu amigo! Olhando por esse lado, é mais comum do que se pensa. Mas eu vou tentar procurar jogos que são ruins de doer mesmo – por exemplo, você citou Shadow Of Colossus, mas tem gente que gosta, né! hehe

    • 10, dezembro, 2010 em 10:23 | #7

      Shadow of Colossus!? o0

      Esse game é considerado uma obra-prima do PS2 por muita gente.

  4. 8, dezembro, 2010 em 14:34 | #8

    Mesmo nos timbres inferiores do MD (com relação às de arcade) eu gostava muito… das músicas, claro! 🙂 Olhando pelo lado bom: Rastan 2 é bem melhor do que Sword of Sodan! :p

    O tema de Rastan 1 no Master ainda é imbatível (pessoalmente) por, além de também ser muito bonito, a nostalgia provocada pela sonoridade do Master no caso específico de Rastan, tipo, foi o primeiro cartucho importado que eu aluguei…

  5. 10, dezembro, 2010 em 10:30 | #9

    Muito legal o som desse jogo, também não conhecia. Particularmente, gostei mais da ~II~ The Trap.

    Jogos ruins com músicas boas até que não são tão raros quanto pode parecer.

    Por coincidência, estou preparando uma matéria (e não uma série) sobre jogos ruins, mas sob outro ponto de vista. Legal esta série, Rafael, vou acompanhar!

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