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Entrevista com Cleber Marques

Cleber Marques

Idealizador e criador da única revista independente impressa sobre retrogames da atualidade, a WarpZone, dono do grupo no Facebook Revistas de Videogame (que não tem nenhuma relação com a minha saudosa e homônima comunidade do Orkut), do Canal WarpZone, da página de Facebook Nintendinho, com mais de 50 mil curtidas, e colecionador de revistas de videogame com uma coleção de aproximadamente 2.700 exemplares.

Cleber Marques gentilmente nos cedeu esta entrevista, realizada via e-mail em meados de Setembro deste ano, respondendo a 15 questões elaboradas pelos membros do Passagem Secreta sobre sua coleção,  mercado editorial, nostalgia e vários outros assuntos!

Aliás, a coluna “Entrevistas” está voltando com tudo! E queremos saber de vocês: quem deve ser o(a) próximo(a) entrevistado(a)? Responda lá embaixo nos comentários e aproveitem a entrevista!

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  1. Primeiramente, muito obrigado por nos ceder esta entrevista! A iniciamos com a seguinte pergunta: como surgiu a ideia de criar a revista Warpzone?

 

Eu que agradeço, pelo espaço e pela oportunidade, acompanho o trabalho do Passagem Secreta faz muito tempo e é uma satisfação participar com uma entrevista. A ideia da revista WarpZone surgiu quando eu olhei por mercado e vi que nenhuma publicação atual tratava da história dos videogames no Brasil, já via isso em muitos sites, mas nada impresso. Pensei que seria legal eternizar isso e dar a importância merecida, mas eu tinha certeza de que nenhuma revista impressa me daria ouvidos quando eu oferecesse a ideia de escrever sobre isso. Então, criei o meu, o caminho mais apropriado pra colocar o plano em prática sem depender de nenhuma outra revista. Porém, este caminho certamente é o mais custoso, não sai barato, o investimento tem que ser muito alto, mas está dando muito certo e crescendo.

A WarpZone começou como uma revista e hoje é uma empresa, temos pessoas fantásticas na equipe e isso colabora muito pros passos que estamos dando. Sabe aquilo que falam que nada seria possível sem a equipe? Aqui isso também é uma verdade. Eu passei meses planejando e vislumbrando sozinho este projeto, quando ele tinha forma e era possível apresentar um Business Case eu contatei a primeira pessoa que integrou à equipe, que foi o Rafael Marques, que apesar do sobre nome não é meu irmão (risos). Depois disso, voamos aumentando o tempo investido na revista, chegamos a ter um produto pra lançar e finalmente apresentamos a primeira edição publicamente.

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  1. A WarpZone é hoje a única revista retrogame impressa de forma independente. O quão difícil é este processo?

 

É muito, MUITO difícil. Primeiro por não termos a estrutura de uma editora, isso pesa bastante porque temos que fazer tudo. Se um editor de uma revista em bancas se preocupa muito com o projeto da revista, do lado de cá na WarpZone eu tenho que me preocupar com edição, pautas, diagramação, reuniões, definições comerciais, investimento, cotação, licenciamento, acordos. É como uma empresa pequena, você faz muitas funções que seriam/são distribuídas em uma empresa maior. Porém, isso tudo é gratificante demais, além do resultado visto com o esforço enorme de todos a gente ganha uma experiência impagável. Quer conhecer as dificuldades do mercado impresso? Pergunte para um editor independente.

Revista HeróiCleber e a primeira edição da revista “Herói”.

 

  1. Conte-nos um pouco do processo de criação de uma edição da Warpzone: quem faz o quê, elaboração de pautas, diagramação, impressão, etc.

 

Atualmente temos 4 pessoas fixas na equipe, na primeira edição era apenas eu e o Rafael. O Ricardo Babachinas é quem cuida dos nossos vídeos no canal do Youtube, ele trabalha com edição de vídeos e foi uma grande soma indispensável para nossa equipe. O Fernando Bastos é o nosso artista, as capas elogiadas da WarpZone são desenhadas por ele, um profissional que trabalha com Design Gráfico. O Rafael Marques está nessa desde o início, nos conhecemos por causa da WarpZone, é quem colabora nos principais textos e quem me acompanha nas visitas que fazemos às empresas/pessoas para a matéria principal de cada publicação. Eu defino as pautas junto com o Rafael, faço a edição e diagramação da edição inteira, cuido da parte estratégica e comercial também, como eu disse na pergunta anterior, uma empresa pequena em que poucos tem que fazer muito, e isso é ótimo.

 

Uma nova edição nasce antes de lançarmos a planejado atualmente, primeiro eu contato alguém, ou alguma empresa, que vai render uma ótima matéria principal, depois alinho com o Rafael o que podemos abordar como conteúdo, vamos pessoalmente até o local para fazer a entrevista, depois fechamos os demais conteúdos da edição. Com base na matéria principal, o Fernando começa a desenvolver a ilustração da capa e o Ricardo a pensar nas edições que vão pro canal. Uma vez que a revista está concluída, mandamos diretamente pra gráfica, acompanhamos a impressão de uma cópia pra ver se está tudo como imaginamos e depois aprovamos a produção de um lote, com base na pré-venda feita anteriormente e um bom número de exemplares adicionais. Aí partimos pra entrega do que já foi vendido e acompanhamos as vendas daquela edição, sem falar que a próxima edição já está seguindo todo o processo descrito anteriormente de forma paralela. Estamos indo pra terceira edição, o processo está mudando, amadurecendo e muitas novidades virão, estamos ansiosos por isso.

 

  1. Revistas de videogame acompanham gamers no Brasil desde o final da década de 80. Das publicações nacionais, alguma em específico te serviu de inspiração para a WarpZone?

 

Olha, vou ser sincero, temos MUITA inspiração nas revistas antigas, que eu adoro chamar de clássicas também, até mesmo no layout, algumas pessoas até já me falaram sobre deixar a diagramação da WarpZone mais “profissional”, mas a minha resposta é sempre que a intenção de voltar no tempo vai até ai, na estética da revista, quero ser simples e práticos como as revistas de antigamente, parte da nostalgia que trazemos está ai também, não queremos nos parecer com as revistas de hoje em dia falando de conteúdo histórico, um dos nossos diferenciais. Nossas principais influências são as primeiras edições da Videogame, Ação Games, GamePower, Supergame e até um pouco da SuperGamePower. Gosto das outras publicações que vieram depois dessas? Claro, adoro elas, mas estou falando aqui de referência e prefiro ficar no início dos anos 90.

 

  1. Das revistas nacionais, qual é sua preferida (mesmo se já não for publicada, se for o caso) e por quê?

 

As revistas que eu gosto já deixaram de ser publicadas faz tempo, como era bom, e mesmo comprando todas que saem nas bancas hoje em dia, as prediletas ficaram nos anos 90. A minha preferida, nacional, é a GamePower, primeiro porque foi a primeira que consegui comprar com o meu próprio dinheiro, segundo porque era focada em Nintendo, e por mais que eu goste muito da Sega, eu nasci jogando clones do Nintendinho, que adoro até hoje. Mas, se não ficarmos só no Brasil, a minha preferida é a Nintendo Power, tenho ela completinha, incluindo revistas especiais e os periódicos lançados antes da primeira edição, lá nos anos 80. O meu sonho é estar à frente de uma publicação como foi a Nintendo Power nas suas primeiras 100 edições.

Coleção Nintendo PowerColeção da revista norte-americana Nintendo Power

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  1. Quais as revistas mais raras sobre videogame?

 

No meu ponto de vista, as mais raras no Brasil são algumas edições como a Especial sobre Golden Axe da Videogame, as duas especiais da A Semana em Ação, antes de virar Ação Games, e alguma outras. É complicado precisar isso, mas temos revistas atuais com menos de 10 anos que são consideradas raras já também.

 

  1. Existe alguma revista a qual você não tenha ainda e a busca constantemente? E qual é a mais rara da sua coleção?

 

Nacionais eu tenho as duas edições especiais lançadas antes da Ação Games virar uma revista própria, as famosas edições da A Semana em Ação. Tenho algumas outras edições difíceis de conseguir, mas que não chegam a ser raras, pelo menos não na minha definição de raras (risos), como o guia da editora Abril, fica meio difícil de definir já que estou quase com 2700 exemplares em casa. Tenho quase todos os primeiros periódicos da Nintendo Power, lançados nos anos 80 antes da primeira edição da revista, isso vale um dinheiro bem alto hoje em dia. Busco ainda muitas revistas, na maioria não são raras nem difíceis de conseguir, eu é que não aceito pagar preços altos por um exemplar, então fico esperando aparecer uma oferta melhor, o que acaba deixando alguns oportunistas que me procuram bem chateados (risos). A minha intenção é ter tudo que já foi lançado no Brasil como revistas de videogame, um dia eu chego lá.

Coleção Revistas de VideogameUma amostra da sua coleção de revistas de videogames

 

  1. Por onde começar uma coleção de games e de revistas de games?

 

Essa não é nem uma dica minha, muito menos uma regra, mas é um processo natural. A gente deve começar, e começa pelo que marcou uma época em nossas vidas. É assim com videogames, jogos e revistas (isso se não for com tudo). Você começa comprando o que sempre teve vontade de ter quando criança e não pôde, depois é muito comum acontecer de completar o que queria e partir pra algo a mais, ou seja, se queria começar por jogos de Nintendinho, quando encontrar tudo que tinha em mente vai começar a comprar jogos de outra plataforma. O mesmo acontece com as revistas: começa colecionando a Ação Games e ao comprar todas as edições vai olhar pro lado, sentir um vazio, e começar a colecionar Videogame, por exemplo. O mal do colecionador é o de nunca parar de colecionar, poucos são os que conseguem ter forças pra parar depois de alcançar um objetivo.

 

  1. Qual a sua opinião sobre coleções digitais de revistas clássicas de videogame (Ação Games, Videogame, SuperGamePower, etc.)?

 

Não sei se pensam que eu seria contra colecionar revistas digitalmente, já que temos tantos colecionadores de jogos hoje em dia que abominam os emuladores, mas no meu caso eu sou totalmente a favor, se o papel toma muito espaço pra você, se ocupa mais do que você pode, parte pra uma coleção digital, não é a mesma coisa, não tem o mesmo apelo, mas é nostálgico do meu jeito. Colecione o formato que te agradar. Acho que uma galera esperaria de mim, como colecionador de revistas físicas, algo do tipo “Revistas em PDF nunca serão iguais as físicas e por isso acho que coleção mesmo é só revista impressa”, mas longe de mim falar isso, eu tenho as minhas físicas e muitas delas no formato digital também. Eu, particularmente, adoro sentir aquele cheiro de antigo das revistas (aquilo que quem tem rinite odeia), curto demais o rito de folhear as páginas, mas não odeio o PDF, somos bons amigos.

 

  1. Sabemos que você tem uma linda coleção de cartuchos CCE do Nintendinho. Conte-nos sobre esta coleção: como começou, o que te motivou, alguma curiosidade e qual foi o cartucho mais difícil de conseguir.

 

Falando de coleção esta é a minha menina dos olhos depois das revistas (Será? Nunca parei pra pensar nisso). Eu sou fascinado por jogos lançados no Brasil, tenho a coleção completa do que a CCE, a MILMAR e a FALCON lançaram por aqui. Aqueles cartuchos mesmo da época da reserva de mercado que muitos colecionadores adoram chamar de pirata. Esses itens são parte da minha satisfação pessoal, assim como as revistas, hoje em dia eu tenho estes jogos e itens diversos porque eu queria ter quando criança e não podia, esperei até agora pra poder colecionar cada um deles, o que sai caro, mas é o preço da minha satisfação como colecionador.

Coleção MilmarColeção de games da Milmar

 

Comecei comprando alguns depois que consegui meu primeiro emprego, em 1997 como aprendiz e de lá pra cá não parei mais. Certa vez, troquei um Atari com dezenas de cartuchos por um Turbo Game com apenas Magic Carpet, eu tinha apenas 10 anos, e a negociação ficou entre eu e o outro moleque, praticamente a mesma idade, porém só depois dos nossos pais descobrirem e verem que os dois moleques concordavam, é que aceitaram também. Até agora, a fita mais difícil da CCE pra mim foi a com múltiplos jogos, a que vem com 42 em um cartucho só, ela você não acha em lugar nenhum, sorte a minha.

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Coleção CCESua coleção de games da CCE

 

  1. Quais foram os materiais mais toscos que você encontrou em revista de videogame?

 

Não sei se eu diria toscos, mas eles beiravam entre curiosos e estranhos. Teve Ação Games que veio com lata de Ovomaltine, dá pra acreditar? E até uma propaganda, muito criativa por sinal, do jogo Sapo Chulé com um pé de borracha grudado na contracapa da revista com cheiro de chulé mesmo. Se for falar de conteúdo interno, daí a gente começa a citar as propagandas impróprias com palavrões e mulher pelada. Eu nunca achei isso ruim, nem tosco, gostava, ainda gosto e acho graça, uma época que já se foi faz tempo, mas que tem muito pra ensinar pra gente.

 

  1. Falava-se muito da diferença de conteúdo entre a SGP e a Ação Games na época em que a segunda apoiava a Tec Toy por demais. Você concorda com essa afirmação?

 

Concordo sim, e era visível, mas até aí a gente pode entender isso como um acordo, certo? Um pequeno pedaço dessa história a gente encontra na matéria sobre a Tec Toy que fizemos para a WarpZone 3. Na época eu era bem pouco crítico com isso, no sentido de ver e analisar, mas hoje em dia eu entendo que ambas tinham as suas fontes e formas pra procurar um diferencial, cada uma usou da melhor arma possível e deu no que deu: uma disputa maravilhosa entre duas revistas que fizeram a nossa alegria nos anos 90, sem preferências.

Coleção FalconColeção de games da Falcon. Forte nostalgia nos donos de um Phantom System!

 

  1. A quantas anda o projeto de catalogação de revistas de videogame do seu grupo no Facebook, o “Revistas de Videogame”? Qual é o objetivo principal deste projeto?

 

Está parado, pois preciso de dinheiro pra continuar investindo, mas não é um projeto morto, o quero pronto ainda em 2015 e agora é um projeto apoiado pela WarpZone. O principal objetivo é catalogar a história das revistas no Brasil de todas as épocas, e que esse catálogo sirva como um site para você registrar a sua coleção e as revistas que procura para comprar. Temos muito trabalho pela frente, mas o resultado será único, pode apostar.

 

  1. Você acha que a revista impressa, em papel e fechada para publicação em períodos, tem futuro frente às outras mídias mais dinâmicas?

 

Futuro tem sim, pelo nicho, que comento na próxima pergunta. Pode não ter uma vantagem, e isso é relativo, porém a revista impressa é periódica. É como acompanhar um programa na TV, mesmo podendo assistir a todos os capítulos de uma temporada, ainda tem gente que gosta de ter o ritual de parar pra ver algo numa hora marcada. O legal do mercado de retrogames, seja para jogos ou revistas, é que a nostalgia é o principal fator de motivação, e tenho certeza de que tem gente hoje que nem leria o trabalho da WarpZone se ele fosse apenas digital, mas pelo produto ser impresso chamou mais a atenção.

 

  1. Mercados como indústria fonográfica e home vídeo tiveram que se reinventar para voltar a gerar algum lucro. Produtos editoriais em geral, como jornais e revistas, sinalizam uma situação similar. No caso de revistas de videogame, você acha que ainda há mercado para revistas impressas, ou isso é algo de nicho, como a “Old! Gamer”, dedicada a um público específico?

 

Com certeza, a revista impressa sempre terá seu espaço, essa é a minha opinião pessoal, mas com base no que vemos com outras mídias, vivemos na era do Blu-Ray e que quem quiser ainda pode ir e comprar um disco de vinil, e é disso que eu estou falando. Pode ser, não sei, que revistas em bancas de jornal não durem por muito tempo, mas conseguir publicações impressas, mesmo que em livrarias ou lojas especializadas, isso estará sempre ai, é algo que vai ter um público restrito, porém muito fiel, pra sempre.

Idealizador e criador do Passagem Secreta, vencedor do prêmio Top Blog, cientista da computação, pós-graduado em Educação, professor e, nas horas vagas, gamer.

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Categories: entrevistas
  1. 23, outubro, 2015 em 11:32 | #1

    Que entrevista awesome! Eu fico feliz ao ver o empenho que o Rafael empregou para conceber a Warpzone. Ela está na minha lista de presentes de Natal que eu vou me dar, hahaha!

    Muito boa a entrevista, estou no aguardo das próximas!

    PS: Coleção sensacional a dele!

    • 28, outubro, 2015 em 18:24 | #2

      Obrigado pelo comentário, a WarpZone está a todo vapor, sempre trabalhando muito pra deixar ela melhor ainda 🙂

    • 8, novembro, 2015 em 00:02 | #3

      Tomara que tenha ficado tão boa quanto a sua entrevista com o Amer. 🙂

      Cara, fiquei louco pelos itens relacionados ao Phantom System! Tive um na infância e adorava esse console!

      Conselho de amigo: assine a WarpZone. É a revista retrogamer mais próxima de nós, jogadores, da atualidade.

      Valeu Diogo!

  2. Gamer Caduco
    11, novembro, 2015 em 21:01 | #4

    Pô, parabéns para o Cleber e toda equipe do WarpZone pela iniciativa. E, por favor, não "profissionalizem" a revista, mantenham ela a cara do passado mesmo. A nostalgia não tem preço!
    Estou bastante curioso em ver o resultado, mas ainda não fui atrás de comprar uma.
    Muito boa a entrevista, eu realmente não lembrava da revista que vinha com o pé fedorento do Sapo Xulé na contra-capa, putz que bom relembrar isso!
    E por falar em cheiro, quem é que não curte sentir o cheiro das revistas, né?
    Muito boa a matéria!

    • 18, novembro, 2015 em 22:59 | #5

      Concordo plenamente!

      E que a WarpZone continue a dar oportunidade para pessoas que sabem muito do assunto, mesmo que às vezes não sejam jornalistas, escreverem na revista. Quem acompanhou as primeiras Videogame, por exemplo, que parecia uma fantástica revista criada por algum grupo de amigos de uma locadora de videogame, sabe o que estou falando. É, a nostalgia realmente não tem preço!

      Valeu Gamer Caduco!

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